Roland Villard e sua declaração de amor ao Brasil.

De tempos em tempos me presenteio com um agrado – gastronômico, claro. Pode ser uma caixa de chocolates belgas, uma faca de cozinha estalando de nova ou uma refeição em um restaurante incrível. Ontem foi dia de comemoração e elegi um jantar.

Liguei para o Olympe para saber se o chef estaria na casa, já que prefiro ir nessas ocasiões. O Claude Troisgros, porém, tinha passado no restaurante mais cedo. Foi quando me questionei: que outro lugar estaria à altura do Olympe e da comemoração? Só consegui pensar no Le Pré Catelan. Além da maravilhosa vista para o mar de Copacabana e dos lustres que me fazem sentir num palácio, o Le Pré Catelan tem outra coisa que adoro: um chef presente, faça chuva ou faça sol.

Roland Villard está sempre na cozinha e nunca deixa de circular pelas mesas. E que delícia experimentar seus pratos com um sotaque francês ao fundo. Ontem decidi provar o Menu Amazônia. São nove pratos com ingredientes da região, entre sorvetes e granités para agüentar o ritmo.

Biju de tapioca com brandade de tucunaré ao leite de coco, para ser comida com a escama do próprio peixe.

O jantar começou com a brandade de tucunaré ao leite de coco servida ao lado da tapioca de crustáceos e palmito com geléia de pimenta. O esforço do chef em usar ingredientes regionais é nobre, e posso imaginar a dificuldade para conseguir alguns peixes e frutas. Chamava atenção a enorme escama de tucunaré enfiada na brandade. Para ser usada como colher, dava um charme especial ao prato.

As pérolas de tapioca enfeitavam o pastel de siri. Não sobrou uma bolinha para contar a história.

Veio então o pastel de siri coberto por sagu. As bolinhas, marinadas em caipirinha, formavam um par perfeito com a carne de siri. Ao lado um surpreendente chutney de bacuri (que infelizmente não aparece na foto).

Pirarucu em crosta de caju e caldo de tucupi e jambu. Para comer de colher!

O jantar continuou com o pirarucu em crosta de caju e caldo de tucupi e jambu. Uma colher, providencial, ajudou a aproveitar o caldo até a última gota. Todos os sabores estavam lá, mas apesar de conhecidos criavam uma impressão absolutamente nova. Igual só mesmo a dormência estalando de leve na língua, provocada pela folha de jambu.

Quando o sorvete de murici chegou à mesa, foi um alívio. Apesar de os pratos serem pequenos e servidos em um ritmo bom, meu estômago pedia algo mais leve.

Sorvete de murici: no momento certo!

Continuamos com os “blinis de moqueca”, como chama o chef. Com consistência aerada, similar a uma omelete, a moqueca acompanhava um camarão grelhado.

O melhor do prato está ao redor dele: farofa e creme de castanha do Pará.

Apesar das estrelas do prato serem o camarão e a moqueca, o que me encantou foram o creme e a farofa de castanha do Pará. Rodeando o prato, formavam uma dupla imbatível. Comeria fácil uma tigelinha do creme de entrada, salpicada com a farofa sobre ele. Sen-sa-cio-nal!

Mas o melhor ainda estava por vir. Era a hora do carré de tambaqui. Delicados, os dois pedaços apoiados um sobre o outro estavam lindos. Ao lado, um copinho com purê de baroa defumada. A finalização, porém, foi à mesa: um banho de molho de ervas, carregado no tomilho, sobre o peixe.

Carré de tambaqui: a delicadeza da montagem do prato impressiona.

Foi quando veio a segunda “ajuda”: o granité de caju, que serviu como uma pausa para chegar ao final da refeição.

O último prato, muito aguardado por mim, era a costela de boi confit. Apesar de deliciosa e extremamente macia, a carne perdeu muito com o empanado de mandioca. O que mais gosto nos empanados é sua crocância, o que não havia ali. Mas isso acabou ressaltando o purê de banana da terra com mínimos pedacinhos de bacon. O molho de jabuticaba, fruta que adoro, também fez sucesso.

Ganha um doce quem adivinhar!

Para finalizar, uma surpresa de chocolate envolta por coco ralado, com sorvetes de cupuaçu, açaí com banana e taperebá. Decorando, uma folha de açúcar que merece ser comida até o último pedaço. A surpresa disse a que veio na primeira colherada. A casca firme de chocolate, ao ser quebrada, deixou escorrer um creme de coco que se misturou às bolas de sorvete.

E como no Le Pré Catelan tudo é superlativo, ainda chegou à mesa a linda bandejinha de petit fours. Incapaz de provar aquelas delicadezas (como sempre acontece), perguntei se era possível levar um de cada para comer no dia seguinte. O serviço, gentilíssimo, ofereceu uma caixinha para escolhermos o que levar.

Para fechar com chave de ouro.

Assim, o jantar divino de ontem foi prorrogado até, quem diria, o café desta manhã. Obrigada, Roland, por essa deliciosa declaração de amor ao Brasil.

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2 Comentários

Arquivado em Restaurantes

2 Respostas para “Roland Villard e sua declaração de amor ao Brasil.

  1. Leon

    As fotos ficaram P.H.O.D.A.S.!!!
    Parabéns!

  2. Leon

    O texto também incrível, parecia estar provando junto!!!

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