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Jantar a quatro mãos

Os chefs Frederic de Maeyer e Nao Hara: jantar a quatro mãos

O Rio de Janeiro aderiu de vez. São cada vez mais freqüentes os jantares a quatro mãos. No início do mês rolou a dobradinha Alex Atala e Pierre Landry, no Mok. Logo depois soube que o Rodrigo Oliveira, do paulista Mocotó, pegaria a ponte aérea para cozinhar com o Thomas Troisgros, do 66 Bistrô. Pois semana passada foi a vez de dois restaurantes cariocas unirem forças. Frederic de Maeyer, do Eça, e Nao Hara, a frente do Nao e do Shin Miura, prepararam um cardápio especial com pratos intercalados.

Adoro o trabalho do Frederic, principalmente suas sobremesas (o cara é belga, você pode imaginar o que não faz com chocolate nas mãos). Assim que soube do jantar tratei de fazer minha reserva e nem me dei ao trabalho de perguntar pelo cardápio – queria ser surpreendida. Na quinta-feira lá fomos nós para a experiência. Antes mesmo da primeira entrada já levei um susto – dos bons. Fred estava incumbido de fazer o prato de peixe e todas as sobremesas que não levavam chocolate. Como assim?!?, nos perguntamos. A brincadeira foi ousada e eu só conseguia pensar em como o Nao se sairia dessa.

Abrimos os trabalhos com um trio de couvert. O consomê de frutos do mar, de uma refrescância deliciosa, levava shitake, camarão, ostra e capim limão. Ao lado, um fresquíssimo sushi de salmão semigrelhado com tartare ao mel e mostarda. Finalizando, um macio pedaço de queijo de cabra – que se desmanchava na boca – escondendo uma uva verde e pedacinhos de pistache. Para acompanhar fomos de espumante. E saúde, que o jantar estava apenas começando.

Sushi de salmão semigrelhado, consomê de frutos do mar e queijo de cabra com uva verde.

A primeira entrada, assinada pelo Frederic, foi quase um prato. Foie gras marinado e grelhado sobre purê de mandioca. Escoltando a obra-prima, aspargos brancos. O toque final ficou por conta de uma levíssima telha de cacau que além de deliciosa decorava lindamente o prato. Infelizmente uma das pessoas da nossa mesa não era chegada em foie, o que me obrigou a comer praticamente dois escalopes. Afinal, seria uma ofensa (ao chef e a todos os outros da mesa, que babavam sobre o prato da coitada) mandar um prato de volta com comida. Ai, que vida dura… Mas tudo bem, esse tipo de esforço faz parte da vida.

Foie gras sobre purê de mandioca com aspargos brancos.

Passamos então para o ponto alto da noite. Nao serviu um trio de lagosta com o crustáceo em todo o seu esplendor. A terrine de espumante impressionava pela apresentação e seu paladar não deixou nada a dever. Até mesmo um amigo que se diz “iniciante” na arte de comer bem ficou surpreso com o sabor do prato (de cara esquisita, de acordo com ele). Em seguida, papel de arroz recheado com lagosta e gengibre. Fechando o trio, sushi de lagosta sobre um delicado cubo de arroz crocante.

O trio de lagosta do chef Nao Hara.

Após as entradas (me parece tão injusto resumir esses pratos lindos a entradas), era chegada a hora dos principais. Fred iniciou com um filé de vermelho grelhado acompanhado por cogumelos e pupunha – com uma textura incrível – sobre uma emulsão espumosa ao vinho. O filé se desmanchava no garfo e absorvia o caldo adocicado com forte sabor dos cogumelos. Se tivessem servido um pãozinho ao lado, garanto que não precisariam nem lavar os pratos.

Frederic foi de vermelho com cogumelos e pupunha.

Em seguida Nao nos brindou com o prato mais surpreendente da noite. Jamais imaginaria um chef de culinária japonesa servindo cordeiro com tomatinhos cereja confitados. Muito menos dentro de uma cestinha de massa fina e crocante e ainda acompanhado por dois enormes croquetes de feijão branco com carne seca. O cordeiro, curtido em licor de ameixa, estava extremamente macio e saboroso.

O croquete que merecia estar no Comida di Buteco. Bom demais!

Mas concorrer com o croquete não foi fácil – só deu ele! Se tivesse inscrito seu bolinho no festival Comida di Buteco, seria um forte concorrente. Além disso, dificilmente encontro feijão branco – que adoro – nos restaurantes, mas sempre que me deparo com o ingrediente é uma grata surpresa.

Depois de tanta comida estávamos receosos com o que ainda viria pela frente. O cardápio listava nada menos que seis sobremesas, três de cada chef. Mas os doces eram pequenos e delicados. Chamava a atenção um copinho de chocolate recheado com musse exibindo uma physalis no topo, uma fruta amazônica (olha aí mais um ingrediente para o Menu Amazônico do Roland) levemente ácida com uma linda casca em formato de balão. Ponto para o Nao, que ousou bem na sobremesa.

As outras sobremesas de chocolate vieram em forma de brownie – ladeado por uma moldura de açúcar caramelizado e de brigadeiro de colher (e que colher!) com gengibre e capuchinha.

Já Frederic foi de torta de limão com pistache e blueberry, profiterole com creme de caramelo e flor de sal e ainda cuscuz de frutas vermelhas com sorvete de graviola.

Nosso simpático garçom exibindo o prato de sobremesas.

A brincadeira da troca de ingredientes foi bem sucedida e rendeu horas muito agradáveis. Nem mesmo o terrível engarrafamento da volta, que nos fez levar uma hora para percorrer os três quilômetros da Avenida Niemeyer, conseguiu acabar com a diversão.

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Comida “di” mulher.

O Pontapé, na Ilha do Governador. No que depender de mim, "É CAM-PE-ÃO!"

Sou fã assumida do Comida di Buteco. O festival, que acontece há 11 anos em BH, ainda é um iniciante em terras cariocas mas já dá o que falar. A terceira edição do Rio está deliciosa e ainda dá tempo de visitar os concorrentes – vai até o dia 27 em julho e movimenta 28 botecos-símbolo da cidade.

No sábado passado o festival organizou uma caravana só para mulheres. Batizada de Caravana do Batom, juntou chope gelado, comidinhas gostosas e ótimas companhias. A fórmula foi imbatível – diversão garantida a tarde inteira. Para se ter uma ideia do clima nossa caravana contou com nada menos que quatro integrantes do grupo Mulheres de Chico. Foi cantoria e batucada até dizer chega.

No Pavão, um brinde às Mulheres de Chico - e a todas as outras também!

Como é impossível visitar todos os concorrentes num dia só – haja fígado! – o roteiro incluiu três legítimos representantes da boemia butequeira. O trajeto começou no Pavão Azul, em Copacabana, que em 2007 e 2009 foi eleito o melhor na categoria Pé-Sujo pelo Prêmio Rio Show de Gastronomia. O bar concorre com um risoto de camarão que, apesar de levar risoto no nome é feito com arroz branco. Uma pena, porque o queijo que vai sobre o prato poderia ter feito uma dupla afinada com um arroz arbóreo. Mas nem mesmo a ótima pimentinha da casa salvou o prato.

O risoto de camarão do Pavão Azul.

Mas tudo bem, outros bares estavam por vir. Entre um chope e outro o grupo ia aumentando e a animação crescendo. Depois do esquenta no Pavão rumamos para o segundo bar do roteiro – até então desconhecido. O destino seria o Pontapé, um bar sensacional da Ilha do Governador. No comando da casa está a divertidíssima D. Rose, que criou para a competição o Baião Carioca: uma panqueca gorducha recheada com carne seca, lingüiça calabresa, cebola, feijão de corda e queijo coalho. A massa, que de tão saborosa fiz questão de provar até pura (obrigada, Dona Rose!), leva arroz, aipim, alho, azeite, maionese, ovo e leite.

Vendida a meros R$ 9,50, é uma entrada sustante e saborosíssima, perfeita para acompanhar a cerveja de garrafa servida em balde. Apesar de maravilhosa, a comida não é tudo. Se o petisco da D. Rose mereceu nota 9, o serviço ganhou 10! Garçons sorridentes e nitidamente alegres por trabalharem em um ambiente tão agradável circulam pelo enorme espaço que inclui ainda um quintal a céu aberto. O Pontapé, que tem capacidade para 300 pessoas, chega a ter fila na porta nos fins de semana. Hoje, dia da estréia do Brasil na Copa, não posso nem imaginar o movimento por aquelas bandas.

O "Baião Carioca" do Pontapé: sensação da caravana!

A essa altura, embaladas por boa comida, cerveja gelada e pelas ótimas histórias de D. Rose, o Pontapé ganhou reforço musical das Mulheres de Chico. Joe Viegas, que nas apresentações do grupo toca surdo, foi de pandeiro. Quem não sabia tocar, cantou, sambou e foi feliz.

A música do vivo do Pontapé ganhou um reforço da mulherada.

Apesar de vontade de ficar por lá até o dia seguinte, ainda tínhamos uma missão importantíssima pela frente: visitar um terceiro e último bar. A Petisqueira Martinho, também na Ilha, não deu sorte. Também, qualquer bar que entrasse no roteiro depois do Pontapé não teria a menor chance de ganhar a nossa simpatia.

O Petisquim (R$ 16,50) impressionava pela aparência. A casquinha de siri recheada com frutos do mar era escoltada por um siri inteirinho, camarão e dois mexilhões. Ao lado, um limão para temperar. Apesar dos nobres ingredientes e do bom sabor da casquinha – com direito a anéis de lula -, no geral o prato deixou a desejar. O camarão, esturricado, foi dispensando no meio. O siri, com patinhas magras, deu mais trabalho do que prazer em comer. Parecia que estavam ali apenas para decoração.

A Petisqueira Martinho concorre com uma casquinha de siri turbinada. Mas o fotogênico siri não empolgou.

Eram quase 7 da noite e hora de partir. Afinal, o sábado ainda nem havia começado e a mulherada tinha uma longa noite pela frente. Os celulares não paravam de tocar e a noitada começava a ser planejada. No trajeto de volta mais batuque, samba (admirável o esforço de todas em sambar numa van em movimento, preciso dizer) e alegria. Tenho certeza de que todas se divertiram, só não posso falar pelo fotógrafo, bendito fruto entre tantas mulheres. Essa alma vai para o céu.

E como o festival vai até dia 27, não deixe de visitar esses e outros botecos do evento. Mangue Seco, Cachambeer, Aconchego Carioca, Petit Paulette e Adega Pérola são alguns dos que espero ter tempo e fôlego de visitar. O Comida di Buteco é diversão pura, mas precisa ser profissional para agüentar. Depois ainda dizem que mulher não sabe beber… Quanta ingenuidade!

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Arigatô, Azumi!

Os sashimis fresquíssimos do Azumi. Em sentido horário: salmão, meca, atum, buri e pargo.

Há quinze anos, quando a comida japonesa começava a se popularizar no Rio de Janeiro, era comum ver pessoas torcendo a cara para sashimis e enrolados. De lá pra cá muita coisa mudou. As temakerias invadiram a cidade, os yakisobas deixaram de ser a única opção para as crianças (que hoje manipulam hashis com intimidade impressionante), e uma variedade cada vez maior de peixes está disponível nos restaurantes.

Mas se há uma coisa que não mudou ao longo de todos esses anos é o restaurante Azumi. Felizmente! Há mais de duas décadas no bairro de Copacabana, o Azumi é discreto e se orgulha de manter a tradição. Escutar as garçonetes conversando em japonês é uma delícia que só se vivencia lá. Folhear o cardápio é outra experiência sensacional. Escrito em japonês, conta ainda com uma página dedicada a sugestões do dia como água viva, bolinhos de caranguejo e peixes menos freqüentes.

A dupla de mini polvo é cara (R$ 21), mas vale cada centavo.

No último fim de semana fui bater ponto por aquelas bandas. Para começar, duplas de mini polvo e de ouriço. O mini polvo, uma de minhas delícias preferidas, é imbatível. Já cheguei ao cúmulo de pedir 3 duplas pelo delivery, e nada mais.  Não era fome, mas uma vontade incontrolável de comer o molusco. Só lamento que aqui no Brasil o bichinho só chegue em conserva. Não saberia dizer qual o gosto dele fresco, mas para mim já está de bom tamanho. Deixo essa descoberta para uma futura viagem. O ouriço, suculento, explodia na boca.

A noite estava fria e pedia um prato quente para seguir em frente. Fomos então de Missô Nikomi Don Azumi, um ensopado de frango e camarão com cogumelo, alho poró, gema de ovo e bastante missô. Perfeito para esquentar a alma e abrir os trabalhos.

O ensopado é perfeito para as noites frias. Repare na quantidade de missô à direita.

E como não se pode ir ao Azumi sem provar seus peixes, sempre fresquíssimos, encerramos com um combinado de sashimis. Sobre o prato, meca, buri (também chamado de olho de boi), pargo, salmão e atum. Para acompanhar, uma tijelinha de gohan, o arroz japonês.

Dispensamos a sobremesa, já que o Azumi só oferece sorvetes industrializados. A única vez em que pedi sorvete lá foi para comemorar um aniversário e precisava de um apoio para a vela. Da próxima, acho que nem assim vou no sorvete. Finco a vela no gohan mesmo.

Agradabilíssima, a noite ainda rendeu um encontro com o querido Dudu, do recém inaugurado Astor, e um animado papo no balcão com o sushiman. Simpático como toda a equipe da casa, nos deu explicações sobre os peixes e, para cada filé exposto apontava o desenho do peixe correspondente no quadro. Não vejo a hora de voltar. Domo arigatô, Azumi!

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O Leitãozinho do Antiquarius (Grill, vale frisar).


O leitãozinho de oito dias do Antiquarius Grill: vale ir até a Barra.

Vou contar uma coisa que jamais achei que fosse dizer nesta vida. Fui ao Antiquarius da Barra e achei melhor que o do Leblon. E não falo apenas sobre a comida. Tudo foi melhor nesta experiência: ambiente, serviço e comida.

O salão da nova filial, com um pé direito altíssimo, respira leveza. A distância entre as mesas é perfeita e não se escuta sequer um pio da mesa ao lado. Lembro da última vez em que fui à casa do Leblon e acompanhei toda a conversa da família sentada ao lado. É inevitável. A filial da Barra, que ganhou além de um nome novo – Antiquarius Grill – diversos pratos inéditos, me fez esquecer que estava na Barra da Tijuca e, melhor que isso, no Barrashopping.

Mérito não só da casa, mas também do shopping, que conseguiu transformar uma área batizada de Boulevard Gourmet em um espaço agradável e sem cara de praça de alimentação. Ali está a nata da nata. Além do português estão filiais do Garcia e Rodrigues, Zuka, Le Vin e Salitre.

Se eu tinha preconceito com o bairro, esta foi mais uma situação que me fez perceber que vale a pena atravessar o túnel para comer bem. É claro que dificilmente iria até a Barra apenas com essa finalidade, principalmente tendo um Antiquarius a poucas quadras de casa. Mas o atendimento me encantou. Manoelzinho, o maitre-sócio-sommelier mil e uma utilidades do restaurante, anda batendo ponto por aquelas bandas. Ponto para eles, que só ganham com o carisma do cara. O resto da equipe não deixa a desejar. Garçons simpaticíssimos e alegres circulam invisíveis pelo salão.

Mas o que me surpreendeu mesmo foi a comida. Tudo começou com o caldinho de feijão e os biscoitinhos de queijo de sempre, o que dá um conforto imediato. Já me sentia em casa. Conversando com Manoelzinho, pedi uma sugestão. Mas foi só bater os olhos no cardápio para eleger de imediato: vou de leitãozinho! Com o aval do maitre, em poucos minutos chega o garçom com o bichinho inteiro sobre uma bandeja. Um mês? – imaginei. Nada disso, oito dias! Mais macio impossível.

Não curte ver o porquinho inteiro? Sem problemas, é assim que o prato chega para o cliente.

A carne, que desmanchava apenas com o movimento do garfo, é servida acompanhada por feijão tropeiro e couve – a combinação perfeita. A pele do porco, pururuca, estalava na ponta do talher. E quando achava que não poderia haver nada melhor que aquilo, me aparece ele de novo, Manoelzinho, com dois pequenos pratos nas mãos. Em um deles, orelhinhas crocantes e bochechas suculentas. No outro, miolos.

Orelhinhas crocantes e bochechas suculentas: um extra só para quem pede.

Em meio a tanta gordura suína de primeira, não foi possível dar cabo de todos os “extras”. Principalmente no caso dos miolos, que exigem gosto pela coisa. O sabor não é fácil e cai melhor quando misturado a outros ingredientes, como num patê.

Manoelzinho me explicou que como muita gente não gosta, esses “extras” vão para a mesa só quando o cliente pede. Não tem meio termo. Ou se ama ou se odeia. Eu fico com a primeira opção.

O Grand Finale: a bandeja de sobremesas.

Não pense que acabou. Afinal, não existe a possibilidade de se ir a um restaurante português sem provar as sobremesas típicas da terrinha. Siricaia, pastel de nata, farófias, toucinho do céu… Comi um pouco de cada ainda com o porquinho na memória. Depois de toda essa orgia gastronômica é bem capaz de eu voltar para a Barra antes do que imagino.

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Medos culinários.

O pavor bateu na hora "H" de mostrar serviço. Pobre Alfredo!

Morro de medo de abrir panela de pressão. Não, nunca vi nenhuma explodir na minha frente nem nada parecido. Mas esta possibilidade sempre me apavorou. Imaginava a cena horrorosa. A panela nas alturas, comida quente espirrando por todos os lados. Até hoje, se tiver por perto alguém que possa desempenhar a tarefa, passo o bastão.

Já tive medo de faca. Causado, claro, por pais zelosos que insistiam em dizer “não mexa com a faca, você pode se machucar!”. Também nunca me cortei gravemente, apenas pequenos cortes como acontece com qualquer um. Demorei a criar coragem para usar a faca de chef e cortar de uma vez só os legumes. Hoje já sou um pouquinho (no diminutivo mesmo) mais rápida.

Morri de pavor de cortar o pescoço do galo Alfredo. No começo estava me achando: “claro que eu tenho coragem, ora. É só um galo”. Mas bastou segurar aquele pescoço quente nas mãos para uma aflição gigantesca tomar conta de mim. Imaginei o galo correndo sem cabeça, o sangue escorrendo nas minhas mãos, a alma do pobrezinho me perseguindo. Felizmente, nada disso aconteceu.

Tenho medo – ou seria aflição? – de comer certas coisas. Não exatamente de comer, mas do que pode acontecer depois. Apesar da curiosidade de provar tudo, tenho lá minhas dúvidas quanto a minha capacidade. Os grilos caramelizados do Azumi, por exemplo. Apesar de ter provado um apenas – e olhe lá! -, o esforço foi tremendo. Visualizei camarão, pensei em crocantes de arroz e até dei uma conversada com o bicho. Desceu, mas foi necessário colocar um sashimi para dentro em seguida. E o que eu mais queria, que era descobrir o gosto do inseto, não consegui. Só senti o “crec” e o doce do caramelo.

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Escorregando no serviço.

Uma coisa que me tira do sério em restaurante é serviço ruim. Claro que se estiver num boteco não vou esperar toalhas na mesa ou um garçom atencioso. Mas quando saio para lugares melhores e, consequentemente, caros, espero sim um atendimento à altura.

Sábado, como bem disse uma amiga, “as bruxas estavam soltas”. Após desistirmos do recém-inaugurado Astor pela enorme fila, fomos jantar no Bar D’Hotel, no Hotel Marina. Como em todo sábado à noite, é claro que haveria fila. Mas esperar no balcão deles é sempre agradável, entre drinks e bom papo.

Assim que nos sentamos, porém, o tempo fechou. Primeiro, as tentativas frustradas em chamar a atenção do garçom. Quando finalmente conseguimos, pedimos o couvert e uma garrafa de vinho enquanto escolhíamos os pratos. Pratos escolhidos, mais algum esforço para conseguir chamar o garçom, e nada do couvert. Meia hora após nosso pedido nos chega o garçom e pergunta: “Você pediram o couvert, não pediram?”. Ainda sem uma taça de vinho na mão, nesse momento minha paciência foi para o beleléu. A resposta dele, porém, foi pior do que o esperado. “É que o couvert não está muito legal”. E ficou parado, aguardando alguma reação nossa. Já escutei muita coisa absurda nessa vida, mas esta frase parecia saída de um filme do Almodóvar.

Além de ter esperado tanto tempo para dizer que não iria nos servir o couvert, o coitado nem ao menos pediu desculpas ou sugeriu uma entrada no lugar. “E agora que você vem nos avisar?!?”, perguntei. “Achei melhor falar do que trazer, porque não está bom mesmo”, completou o coitado, cavando de vez sua cova. Temendo a resposta, nem ousei perguntar sobre o problema da comida. Melhor não saber.

Pedimos o vinho e os pratos, após perguntar se os pratos “estariam legais”. O vinho, felizmente, não estava bouchonné. Já os pratos… ai, os pratos! Meu steak tartar, mais seco que farinha (onde estava a gema?), acompanhava uma salada ainda mais seca, sem molho. Para piorar, batatas ressecadas ao lado. “Azeite, sal e pimenta do reino, por favor”, pedi, numa tentativa de salvar o prato. Mais alguns minutos e lá vem o azeite. E a pimenta? Ah, a pimenta do reino. Quando finalmente começo a moer o tempero, percebo que o garçom havia me trazido pimenta branca.

Foi quando felizmente o garçom deu uma dentro. “Você quer trocar seu prato?”. Ai, que alívio. “O que fica pronto rápido?”, perguntei, numa tentativa de acompanhar as outras pessoas à mesa. Fui de mini hambúrgueres abertos com um naco de foie gras por cima. “Quem sabe desta vez não dou sorte?”. Perguntar pra quê! Quando meu segundo prato chega, percebo que não tenho talheres. Eles haviam ido embora junto com o steak tartar, mas esqueceram de repor. O prato esfriando (hambúrguer com foie gras frio, imagine só), eu tentando chamar o garçom, e o sangue subindo à cabeça.

Na hora de pagar a conta, mais uma tentativa frustrada de chamar o garçom. Mesmo com o restaurante quase vazio, todos eles estavam num canto, batendo um animado papo. Neste momento fui salva por uma amiga, que gritou da mesa. “Oi! Será que a gente pode pagar a conta?”.

Não pense que acabou por aí. Uma amiga estava em sua terceira tentativa de passar seu cartão quando o garçom – ele de novo – diz: “Esse cartão está sem serviço desde cedo. Tem outro?”. Não, ela não tinha. E, inconformada em não ter sido avisada antes, não aceitou que pagássemos a parte dela. Deixou seu telefone e ficou de passar para acertar a conta depois.

E não é que soube ontem pela coitada que o restaurante ligou não uma, nem duas, mas TRÊS vezes para ela perguntando a que horas passaria para pagar. Isso tudo num período de algumas horas, e no dia seguinte ao incidente gastronômico.

Soube pelo nosso garçom que o Bar D’Hotel fechará em junho para “algumas reformas”, disse ele num tom de explicação pelas falhas da noite.  Bom saber disso, mas ainda assim duvido ter paciência para comprovar as mudanças.

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Lugar de chef é na cozinha.

O chef Thomas Keller (o terceiro da esquerda para a direita) na cozinha do The French Laundry. Afinal, que importância isso tem?

No último post, quando escrevi sobre o jantar no Le Pré Catelan, contei que minha vontade inicial era de ir no Olympe. Mas, ao saber que o chef não estaria na casa, decidi mudar o destino. Não que ache que a equipe do Claude não dê conta de segurar a cozinha. Mas penso que em restaurantes deste nível a presença do chef faz parte do pacote. É por isso, inclusive, que aceito pagar mais em determinados lugares.

É sempre uma delícia receber um cumprimento do chef. Bonsoir!, diria o Roland. Uma indicação do que pedir, um papo agradável sobre a vida, ou apenas apreciar a orquestração do corre corre na cozinha.

Para ser um bom chef é preciso se atualizar constantemente, estudar, pesquisar ingredientes, assistir a filmes, sair para comer em outros lugares e, por que não, dar espaço ao ócio criativo e ficar de pernas para o ar. Sim, viver é preciso. Mas esta não foi a primeira vez em que desisti de ir ao Olympe pela ausência do Claude. Da última vez, ao perguntar sobre sua agenda, os funcionários não souberam responder. É imprevisível, e pelo visto cada vez menos freqüente. Uma pena.

Obviamente, a presença do chef no restaurante não é garantia de qualidade. Ano passado tive uma experiência decepcionante no aclamado The French Laundry, na pequena cidade de Yountville, Califórnia. Ansiosa por comprovar o talento do chef Thomas Keller, fiz reserva com três meses de antecedência (o que é fundamental para se conseguir um lugar à mesa).

A experiência foi uma decepção do começo ao fim. Da comida ao serviço, passando pelo altíssimo preço da refeição: 240 dólares por pessoa, a seco. Faça suas contas e caia para trás. O momento mais angustiante, porém, foi ao visitar a cozinha do restaurante. Dei de cara com o chef em carne e osso. Ele mesmo, Thomas Keller, definindo o cardápio do dia seguinte com a equipe.

Terrine de foie gras no The French Laundry. Lindo, mas ficou só na aparência.

O The French Laundry recebeu três estrelas na edição de 2010 do Guia Michelin. Já na avaliação deste ano da Restaurant Magazine, o restaurante caiu 20 posições em relação ao ano anterior. Mas mesmo assim continua sendo considerado o 32º melhor do mundo. Como assim? – eu me pergunto.

Ironicamente, jantei no novaiorquino Per Se, restaurante do mesmo chef, sete dias após minha ida ao The French Laundry. A refeição foi maravilhosa. E, adivinhe? Thomas Keller não estava lá!

São tantos os fatores que influenciam a qualidade de um bom restaurante que não vou nem entrar neste mérito. Claro que a presença do chef não é garantia de nada. Mas, como cliente, prefiro ir a determinados lugares quando eles estão por perto. Farei mais algumas tentativas de ir ao Olympe, mas estou determinada a só comer lá tendo certeza da presença do Claude. Afinal, aquele sotaque irresistível faz toda a diferrrrença!

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