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Muambada gastronômica

A mala veio recheada. Por sorte, tudo intacto, inclusive as garrafas.

Na mala veio de tudo um pouco. De Paris, foie gras, queijos não pasteurizados, terrines, escargot e sais. De Londres, biscoitos, caramelos, chás e até extrato de alho negro comprado em plena Japanese London. Sim, isso existe!

De garrafas, foram 15, entre champanhes e rótulos menos borbulhantes.

Mas a melhor aquisição foi, sem dúvida, o meu exemplar da Larousse Gastronomique. Em breve compartilho com vocês algumas páginas.

Minha irmã não acreditou: “Mas você foi a Paris e não comprou nem uma peça de roupa???”. Um par de botas e um sobretudo para não precisar lavar roupa na viagem. E está de bom tamanho.

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Vinhedos em Napa

Na Eatin' Out deste mês, roteiro sobre as vinícolas de Napa.

Este mês assino uma matéria sobre Napa Valley na revista Eatin’ Out.

É um roteirinho com destaques das principais vinícolas da região e dicas para não se meter em furadas.

Quem quiser ler a Eatin’ Out é só procurar a revista nas bancas.

A edição de agosto conta também com uma matéria do Rafael Teixeira sobre vinhos de nacionalidades inusitadas e com reportagem de capa do talentoso Pedro Mello sobre acidez na comida. A capa, inclusive, está um escândalo! Mérito do fotógrafo Ricardo Bhering.

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Sou caipira pira pora.

Festa junina de verdade tem que ser assim: com sanfona e arrasta pé.

Uma viagem de 13 horas, excesso de trabalho e a visita de um grande amigo. Muitos foram os motivos para me afastar do blog durante tanto tempo. Em compensação o que não falta agora é assunto. Entre as muitas refeições feitas entre Rio e Minas Gerais teve de tudo um pouco: leitão à pururuca, arroz de pequi, bacalhau cru, pastel de siri, sushi de enguia, steak tartar com ovo de 3 minutos e até gafanhotos.

A festa junina, em Montes Claros, Minas Gerais, foi um dos pontos altos do mês. Tradicional do início ao fim – com direito a sanfoneiro, quentão e fogueira -, é o tipo de festa que não se vê mais no Rio. Para chegar lá foram 13 horas na estrada, com direito a paradas no Alemão, no Cupim e onde mais desse vontade.

Localizada no Norte de Minas Gerais, a cidade fica a quase mil quilômetros do Rio de Janeiro. Um horror para as costas, para as pernas e para a cabeça, que no final do trajeto só pensa em quanto tempo falta. Mas basta chegar a Montes Claros para todo o cansaço ficar para trás. Seu povo se orgulha do arroz de pequi e chega ao ponto de congelar a frutinha espinhenta para comer até quando não estiver mais época. O gosto não chega a ser maravilhoso, mas é curioso e vale conhecer.

O famoso arroz de pequi, ainda fumegante na panela.

Com ressalvas, é bom frisar. A frutinha esconde em seu interior um ninho de espinhos finíssimos e super afiados. Na cidade não faltam histórias de quem, lá pela décima cachaça, tenha se esquecido e comido a fruta de uma vezada só. Quem come a fruta, dizem, ou encara uma maratona de pinçadas na língua, na tentativa de arrancar os espinhos, ou bate as botas. Apesar dos pesares, o povo é cheio de orgulho do pequi: “É afrodisíaco” – gritam em coro, reforçando que nove meses após sua temporada a cidade passa por um boom de nascimentos. Quem viver verá.

As crianças ficaram doidas com as fogueiras.

Na noite da festa junina, porém, nada de pequi. Também, com tanta bebida rolando, melhor evitar. A cozinha começou a se preparar para a festa bem cedinho. Os panelões de canjica impressionavam pelo tamanho. Era milho que não acabava mais – e não é que acabou??? O cheiro do quentão invadia todos os cômodos da casa. A mistura de gengibre, capim limão, canela, mel e casca de limão “cura qualquer gripe”, ensina o povo. Depois de pronta, é separada em dois panelões: um para ser servido puro e o outro com cachaça. Completando o cardápio, panelas e mais panelas de vaca atolada, carrocinha de pipoca e outras delícias.

Os panelões de canjica. Acredite: acabou TU-DO!

A festa foi noite adentro. A criançada corria animada em volta da fogueira, os casais curtiam um arrastapé gostoso e todo mundo comia e bebia sem parar. Até eu, que fui pra lá cheia de boas intenções, arrumei um par, vejam só! Mineirinho simpático esse!

Antes mesmo da festa começar, já tinha um par pro arrasta pé!

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Bem-vindo!

O welcome drink do Villa Rasa Marina está mais para welcome bottle. Que bom!

Todo mundo gosta de um mimo. Um docinho servido ao lado do café, uma balinha junto com a conta do jantar ou um amuse bouche para, como a palavra bem diz, divertir o paladar.

Mas melhor do que tudo isso é chegar em um bom hotel após algumas horas de estrada e se deparar com uma garrafa gelada de espumante sobre a mesa de cabeceira. Para completar o pacote, uma caixinha de chocolates para ajudar a segurar a onda das borbulhas. O que mais se pode querer da vida?

Neste fim de semana fui para Búzios e conheci dois hotéis maravilhosos que, claro, me inspiraram a escrever este post. O Villa Rasa Marina, onde brindei com um Chandon Rosé, e o Insólito Boutique Hotel, que elegeu o Brut.

No Insólito, brigadeiro de copinho para acompanhar.

No Marina, localizado na praia Rasa, o acompanhamento foram quatro chocolates com recheio trufado. Já no Insólito, na praia da Ferradura, o espumante brut foi servido com dois copinhos de brigadeiro cobertos por granulado. A escolha dos chocolates foi perfeita. Como o espumante rosé é mais adocicado, caiu muito bem com o chocolate de textura mais seca. O brut, por outro lado, pedia um excesso de açúcar que só o brigadeiro podia dar. Foi de raspar o fundo do copo!

Brindar é sempre bom. Com um espumante gelado, chocolates e em Búzios, fica ainda melhor.

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Comida de avó.

Por mais que goste da dita “culinária contemporânea”, tem dias em que quero mesmo é um sabor familiar. A tal comidinha caseira que nos remete à infância, a dias em que não existiam problemas, prazos ou regras.

Para esquecer da vida, nada como uma comidinha de avó.

Este casal fofo da foto acima vive em Teresópolis, na Pousada Chamonix, onde estive semana passada. Toda de madeira, com pé direito baixo, a pousada é um charme: parece uma casa de bonecas. O café não podia ser diferente. Tem gosto de férias escolares, com direito a repetir quantas vezes quiser o bolo de laranja. Na casa da avó, claro!

O café da manhã na Pousada Chamonix me fez lembrar da infância.

Minha avó nunca foi de cozinhar, mas fazia de tudo para agradar as netas. Preparava lanches deliciosos. Pão francês quentinho, biscoitos, geléias, presunto, queijos mil. Para beber, leite com chocolate. E sempre tinha um bolo fresquinho à disposição: fubá, laranja ou cenoura. Mas a gente gostava mesmo era do clima de bagunça da casa. A mesa cheia, copos entornando, migalhas caindo na toalha, acessos de riso, despreocupação total.

Sempre que passo na casa dela, lá estão eles sobre a bancada da cozinha: a lata de biscoitos, o tabuleiro com bolo, o pote de Nescau. E claro, vovó, para oferecer um lanchinho aconchegante.

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Sabores de uma terra mineira.

Como toda boa viagem, a ida a Aiuruoca rendeu frutos (e também carnes e laticínios). Que terra boa! Tudo colabora para a qualidade e frescor dos alimentos da região. A água, geladíssima e cristalina, possibilita a criação de trutas. Do solo fértil saem frutas como o kiwi para preparar geléias e compotas. Caminhando pelas matas, vê-se pinhão em quantidade. Basta acender uma fogueirinha e comer ali mesmo, sentada na grama.

Pinhão vai bem com tudo: vinho, cerveja e até água de cachoeira.

Do leite de vaca, criada solta nos pastos (que diferença!), faz-se queijos saborosos, doces e o que mais a imaginação permitir.

O queijo curado feito pelo pessoal da cooperativa do Matutu. Delícia!

Eu, que já havia ido diversas vezes a Aiuruoca, fiquei muito feliz com uma novidade. O colégio inaugurado recentemente no Vale do Matutu construiu uma pequena estufa para plantar verduras. As crianças aprendem a plantar, a preservar e ainda se alimentam bem.

Verduras em quantidade na horta do Matutu.

Fora a comida mineira preparada no fogão à lenha. Ah, o cheirinho da madeira queimando, do feijão cozinhando, da abóbora se desmanchando na manteiga. Além disso, a hospitalidade do povo faz toda a diferença. Aprendi a fazer almôndegas suculentas com Dona Iraci, cozinheira de mão cheia que adora ensinar receitas.

Um dia ainda levo essa vida mansa. Do cão, claro.

O matuto retratado no artesanato expressa bem o clima da região. Comendo em prato de barro, com o fogão a lenha ao fundo. Ao seu lado, o cão aguardando por algum restinho. Um dia ainda levo essa vida…

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Comer ou não comer…

… eis a questão. Durante os dias no sertão, me deparei com uma questão delicada a respeito das nossas escolhas alimentares. Se aqui na cidade grande comemos o que está ao alcance do bolso, lá os pratos vão para a mesa com o que a terra produz – mesmo que isso signifique comer as mesmas coisas por todo o mês, ou alimentos polêmicos.

Esse último foi o caso do tatu-peba, que tem a caça proibida de acordo com a lei 9605/98, artigo 29. A lei diz que é proibido “matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória”.

O tatu-peba pernambucano, já velhinho.

Mas, como toda lei tem suas exceções, prevê casos como esses de Santa Terezinha, onde alguns animais são mortos não visando o lucro da venda ilegal, mas para saciar a fome. É o que diz o artigo 37, mais adiante: “Não é crime o abate de animal, quando realizado em estado de necessidade, para saciar a fome do agente ou de sua família”.

Em Santa Terezinha, onde a água é escassa, criar gado é complicado. Como precisa pastar, nos longos períodos de seca a alimentação do animal fica comprometida. Em algumas épocas até as frutas e legumes são escassos. E é aí que entra o tatu.

Mesmo tendo esse “direito”, os moradores da fazenda comem o animal raramente. “A última vez tem mais de ano”, me contou um deles. Isso porque eles têm consciência da necessidade de se preservar determinadas espécies, e também pela dificuldade em se caçar o tatu.

As crianças da fazenda têm respeito e carinho pelo tatu.

Como tive a oportunidade de estar presente no jantar do tatu, acho interessante compartilhar isso. Não pretendo, porém, incentivar o abate destes animais. Muito pelo contrário. Pensei muito antes de decidir escrever sobre o assunto, e decidi arriscar.

A repercussão do abate do galo Alfredo, porém, me deixou um pouco assustada. Não imaginava que a morte de um galo pudesse chocar. Mas entendo, já que estamos afastados do processo que um alimento leva até chegar às nossas mesas. Depois de presenciar a morte de Alfredo posso dizer que me tornei muito mais consciente do que como. Foi uma experiência importante. Mas respeito quem prefira não saber e se manter afastado da culpa. Não sinto culpa, e me responsabilizo pelas minhas escolhas (como a de comer foie gras, por exemplo).

Voltando ao tatu! Existem diversas espécies de tatu. A mais comum no sertão pernambucano é o tatu-peba, também conhecido como tatu peludo por ter pelinhos brancos em sua casca. O tatu do jantar era um macho já idoso, de pouco mais de 10 quilos.

O cozinheiro apresenta o prato.

Foi preparado por uma das poucas pessoas da cidade que sabem como fazê-lo. Como tem um cheiro muito forte, é preciso limpá-lo com cuidado para evitar perfurar suas glândulas. Cortando errado, os hormônios tornam a carne insuportável. Além disso, como é cozinhado com a casca, deve ser muito bem lavado. A casca é passada no fogo para soltar os pelos e a camada mais aparente da casca.

A carne, incrivelmente vermelha, é gordurosa e de sabor marcante. A primeira associação que me veio à cabeça foi ossobuco. Outra pessoa, que também comia pela primeira vez, falou em rabada. Uma mistura das duas, eu diria. O tatu alimentou mais de 10 pessoas, e foi servido acompanhado por macaxeira, farofa, macarrão e ainda salada. Não que esses sejam os acompanhamentos ideais. Era o que havia, assim como o tatu.

Achei melhor não publicar fotos do tatu sendo preparado, pois minha intenção não é chocar, muito menos incentivar o consumo de um animal tão importante para o equilíbrio dessas regiões. Afinal, o bicho se alimenta de insetos, principalmente formigas.

E deixo a pergunta: se você estivesse no meu lugar, comeria?

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